FREAKS E OUTROS BICHOS. MAGIA E OUTROS BABADOS: A GÊNESE DO RITUAL MARIOJORGIANO
O empenho da propaganda da literatura combativa, incentivada pelo Centro Popular de Cultura, começou muito antes da redação do anteprojeto de seu manifesto em março de 1962. Em conseqüência deste fato, muitas vezes as anteriores publicações participantes contrariaram o manifesto quando enunciavam a estratégia de abordagem com o público e a evolução duma arte baseada nas necessidades sociais ou quando enquadravam vários artistas como revolucionários, desviando-se das suas composições de cunho não engajado, com uma crítica materialista. Inevitavelmente, o paralelismo entre a procura duma sustentação cultural e o imediatismo da luta não poupou O realismo social na poesia em Sergipe[1] dessas duas tendências. Austrogésilo Santana Pôrto anunciou um “romantismo revolucionário” como a fórmula universal de salvação da humanidade com uma estrutura descritivista solicitando uma estabilidade utópica, enquanto o anteprojeto do CPC afirmava o conceito do sacrifício artístico, que preservava um compromisso de clareza para com as massas, não podendo, entretanto, desprender-se da pesquisa formal que reeducaria o povo – fala-se, portanto, duma arte que pretendia ser reoperável. Santo Souza terá sido, talvez, uma das maiores vítimas da organização do compêndio sergipano do realismo social. Através dum critério que denominou de “honestidade artística”, Santana Pôrto absolveu Souza da sua ansiedade metafísica, do seu hermético misticismo ou da sua opção pelo verso clássico (características que o consagraram nacionalmente com a Ode Órfica, em 1956) e, mesmo depois de 30 anos, influenciou a crítica escrita por Eunaldo Costa[2] na Revista da Academia Sergipana de Letras, que interpretou o breve rompimento do hermetismo clássico no livro Pássaro de Pedra e Sono, mais vinculado à temática da condição sertaneja, como um desenvolvimento retilíneo de sublimação social dentro da sua poética. O retorno ao antigo escopo estético, com as publicações, por exemplo, de A Construção do Espanto e Âncoras de Argo, evidencia que a nova dimensão apontada por Eunaldo[3] no Pássaro de Pedra e Sono não passa duma possibilidade souziana paralela às motivações duma “ode órfica”, ou melhor, uma tentativa de concretização do que a indicação da geração de 60, encabeçada por José Sampaio, Enock Santiago Filho e José Amado, lhe cobrava, e não uma escalada linear-totalizante na produção do poeta órfico.
A poética multiforme mariojorgiana (populista, concretista, praxista, processista e místico-marginal) também demonstrou uma dificuldade para com a crítica sergipana em estabelecer um núcleo que harmonizasse todas as modalidades poéticas contidas num autor que, diante duma morte prematura em 1973, deixou uma quantidade enorme de material inédito. Diversas vezes, em meio a busca identitária dos estudiosos, Mário Jorge solidificou-se como um militante político, como um canalizador de experiências vanguardistas em Sergipe ou como um poeta-profeta absorvido na desbundada transcendência dos anos 70. O amálgama da escrita mariojorgiana sacrificou-se perante a cristalização duma alternativa poética destacada que dispersava as outras. A publicação do livro Poemas de Mário Jorge[4] –combinada ao seu passado de liderança política, o qual lhe proporcionou o afastamento do colégio Atheneu e intimações do Ministério da Guerra e da Secretaria de Segurança Pública[5] seguidas de prisão em 1968 - autorizou artigos como o de José Paulino, Eu quero sentir a Vida, para a Folha da Praia, onde se afirmava, em perspectiva extremamente social, que “por ser um andarilho consciente, jamais se furtou em brilhar ante a escuridão dos dias em que atravessávamos no início da década de 70”, ou a própria apresentação do livro escrita por Wellington Mangueira. Revolição, o livro-envelope de Mário, neste caso, apesar do poeta mostrar evidente desligamento com a forma de produção cepecista enunciando, para a Gazeta de Sergipe de 14 de julho de 1968, que “o panfleto é válido em política, mas representa um recurso superado em poesia”, era entendido, seguindo essa solidificação da fase participante, muito mais pelo seu conteúdo político do que pela reformulação que lhe estava embutida – o nível de heterogeneidade informativa da forma práxis, que comporta as várias combinações, inclusive a política, foi, portanto, sufocada, por algum tempo, em torno da ação política do passado de Mário Jorge.
Ainda que a Sociedade de Cultura Artística de Sergipe (SCAS) tenha editado em 1980, na Série Autores Sergipanos, um suplemento especial com originais de Mário Jorge da época entre 69 a 73, com uma tiragem de 2000 exemplares, uma tentativa de resgatar a naturalidade da flutuação artística dum dos editores do jornal Toke de 1972, uma flexibilidade significativa sobre o exame do percurso literário e comportamental mariojorgiano apenas foi conquistada com a organização de Cuidados Silêncios Soltos[6]. O ensaio Apresentando Silêncios Soltos, de Vinicius Dantas, preocupou-se em enunciar a condenação da literatura exposta em vincular-se ao projeto da oratória esquerdista. Referiu-se, igualmente, à substituição da estratégia vocabular da luta por um retrato fugaz poetizado do cotidiano – “Seus últimos escritos olham a literatura mais como uma espontaneidade quase física, traço ligeiro praticado a qualquer hora e em qualquer lugar, mais como um registro precário de situações de vida e sensibilidade em bruto”[7]. Sob esta perspectiva, o processo de criação neste estágio literário tornou-se mais artesanal e simplificado (a captura da experiência instantânea é requisitada por seu ideal estético, o que evita a sujeição a níveis de reformulação poética e reduz as posteriores contaminações à sensível absorção inicial); paralelamente, ocorre a descentralização, em diversos momentos, da posse dos documentos-autógrafos pelos ambientes que o poeta freqüentava[8].
O prefácio de Vinicius Dantas mostra a trajetória de Mário Jorge vinculando-se a uma referência capital de maior significância para ser compreendida: a experiência vanguardista. Mesmo que no seu estudo fiquem evidentes, para o modo de produção literário do poeta, características que mais se associam à poesia marginal dos anos 70, com a intromissão anárquica do instante desfossilizado do cotidiano (que se conflitua ao rigor dos tentáculos concretistas também presentes no arcabouço do poeta)[9], Dantas comenta o enveredar pelas (im)possibilidades dos escombros sintáticos através da manutenção dum subjetivismo sobrevivente exposto à tecnicidade vanguardista.
Contudo, considera-se parca tal explicação sem antes associá-la a duas crises mais gerais surgidas nas propostas duma poética nacional e ocorridas em períodos muito próximos: o sistemático questionamento da confecção da literatura e da política participante – a (re)forma mostrou-se ultrapassada e a autocrítica indagou se a inversão de valores, como ditadura proletariada, permaneceria sem riscar a palavra poder, o que prolongaria infinitamente o ciclo de exploração – concomitante à maior pressão da ditadura (no ano de 68), que provocaria o fechamento político, e as cisões, revisões e queda das frentes de vanguarda, resultadas do enfraquecimento da idéia sobre a onipotência da palavra-objeto ou do inter-relacionamento estrutural (ferramentas fabricadas para serem o dito real e transformá-lo), da censura ao paideuma concretista e da afirmação que a modernização da linguagem adaptada à realidade urbano-industrial não seria uma evolução sócio-econômico-lingüística, mas sim um novo estágio de dependência do subdesenvolvimento. Por um lado, vê-se a desorientação dum líder político desacreditado no lirismo inocente da manifestação populista e o início do dramático isolamento político, individual; por outro, a suspeita sobre as argolas bibliográficas concretistas, comentada, inicialmente, pelo movimento de rachadura práxis, que condenou a estratégia concretista explicitando que a mesma ainda estaria aliada à atuação em escola histórico-literária e, por conseguinte, conjugada ao mito literário, validou a introdução dos registros espontâneos; no caso de Mário Jorge, dilacerou-se o seu egocentrismo conturbado, intérprete das sensações, em meio ao informativo vanguardista – o resvalar-se do mundo, através duma caótica subjetividade (in)contida, capengou diante da tentativa de siglas globalizantes e das áreas de levantamento sugestivas da discutida praticabilidade real-impessoal-coletiva.
Embora Dantas afirme que a versão remanejada de Cuidado Silêncios Soltos, a segunda edição publicada pela UNICAMP, não altera, essencialmente, a antologia da primeira, o caráter aparentemente sistemático de experiências lingüísticas desta teria sido substituído por outro mais artesanal (o que aproximaria ainda mais da proposta do suplemento do SCAS) através da diluição dos blocos temáticos, do fato de estarem aí privilegiados os manuscritos e a arte semiótico-visual e da eliminação da penúltima secção Anotações para crítica, fragmentos, entre os anos de 67 e 69, que mostravam clara preocupação concretista e praxista. Além desta similitude das formatações dos textos entre a segunda edição do livro e o caderno do SCAS, que denunciavam a marginália do poeta, também se mostrou presente outra semelhança mais facilmente perceptível a partir da maior exposição da poesia semiótica: a psicodelia espasmódico-mística[10], algumas vezes, ironizada, contudo, na maior parte das vezes, acreditada, que teria levado o jornal Toke a conceder a Mário Jorge o título de poeta-profeta.
Com a descompactação do movimento vanguardista, a tendência à ausência de organicidade foi-se fazendo cada vez mais atuante: a práxis, com o seu levantamento de áreas informativas e a poesia-processo – com a aposta na concretização da transformação contínuo-espaço-temporal partida dum movimento individualista do autor para a abertura coletiva – permitiram uma produção descontroladamente descentralizada em seus projetos. Do contexto processo, Mário Jorge, em sua poesia visual, resguardou o elemento sucessivo de simulação (que se choca com o inter-relacionamento estrutural das outras vanguardas baseado na interação estática das codificações) e a formatação inacabada da composição, que caracteriza o infinito processo contínuo que se nega a fechar o ciclo da manufatura poética. No entanto, a geometrização-serial pretendendo a racional intervenção na condição econômico-social, herança concretista, com uma função didática internacionalmente consumida, é apagada por Mário Jorge através da introdução de ícones primitivos, como pássaros, estrelas e pirâmides, encaminhadores duma busca pessoal transcendente: dispensa-se o sonho pretérito da comunicação real dum indivíduo que se propõe à coletivização e aceita-se o subjetivo silêncio místico, margeado de morte, que intenciona a descamação do progresso civilizatório e o afastamento do mundo. O silêncio mariojorgiano, que prenuncia o falecimento físico, é sinônimo de extinção de nomenclaturas e códigos que inserem o homem no plano organizado do real, um sacrifício solitário já cansado de siglas desenvolvimentistas e protestos sociais[11].
Referências bibliográficas:
Arquivo particular de Ivone Menezes Vieira.
JORGE, Mário. Poemas de Mário Jorge. Aracaju: Gráfica Editora J. Andrade, s/data.
_____. Cuidados Silêncios Soltos. Aracaju: Gráfica Editora J. Andrade, s/data.
_____. _____, 2ed. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1993 (Coleção Matéria de Poesia).
_____. De repente, há urgência...Aracaju: Gráfica Editora J. Andrade, s/data.
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Impressões de Viagem; CPC, vanguarda e desbunde: 1960/70. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980.
_____. et GONÇALVES, Marcos Augusto. Cultura e participação nos anos 60. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
MATTOSO, Glauco. Poesia Marginal. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de época; poesia marginal anos70. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1981.
_____. Contracultura. São Paulo: Nova Cultural/ Editora Brasiliense, 1986.
[1] Austrogésilo Santana PÔRTO (org.). O realismo social na poesia em Sergipe. Aracaju: Livraria Regina, 1960.
[2] Eunaldo COSTA. Universo de Santo Souza. In: Revista da Academia Sergipana de Letras número 30. Aracaju: Fundação Augusto Franco, 1990. p107-114.
[3] Eunaldo Costa, um dos representantes da segunda geração do realismo social sergipano, segundo a classificação de Santana Pôrto, produziu obras que renovaram a consciência social do engajamento em plena crise da poesia participante; atenuou o panfletarismo e conteve o ingênuo otimismo cepecista
[4] Mário JORGE. Poemas de Mário Jorge. Aracaju: Gráfica Editora J. Andrade, s/data.
[5] Os recortes de jornais e documentos citados foram xerografados e gentilmente cedidos à pesquisa por Ivone Menezes Vieira – todos poderão ser encontrados em seu arquivo particular.
[6] Mário JORGE. Cuidados Silêncios Soltos. Aracaju: Gráfica Editora J. Andrade, s/data.
[7] Id. Op. Cit. p.5.
[8] Em entrevista com Ivone Menezes Vieira, mãe do poeta, ela relatou o resgate de vários documentos-autógrafos em casas de conhecidos, bares, etc. Em Apresentando Silêncios Soltos, prefácio de Cuidados Silêncios Soltos, Vinicius Dantas afirma: “Mário também oscilou sistematicamente, com o desperdício de quem, entre outras coisas, escrevia cem poemas em uma semana, perdendo-os todos na semana seguinte”.
[9] Para entender a combinação de momentaneidade e informação rigorosa, observar a classificação de pós-tropicalistas em HOLLANDA, Heloísa Buarque de. O susto tropicalista na virada da década. In: Impressões de Viagem; CPC, vanguarda e desbunde: 1960/70. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980. p53-87
[10] Para um entendimento mais apurado desta fase, consultar Thiago Martins PRADO. A Descoberta dos “Silêncios Soltos” – a problemática do título. In: ABRALIC. Seminário abralic norte/nordeste culturas, contextos e contemporaneidades (anais). EDUFBA: Salvador, 1999. p165-9.
[11] Está sendo organizado um livro, com originais provindos do arquivo particular de Ivone Menezes Vieira, provável título: A noite que nos habita, que se concentra exclusivamente nesta fase poética de Mário Jorge. O título desta comunicação foi retirado de um desses documentos-autográfos.